Especulações

POF! Um corpo cai no chão.

Num domingo de noite um corpo cai na rua deserta e, sem suspeitos aparentes, uma mulher está morta bem no centro da cidade.
Assim que os primeiros raios de sol chegam substituindo a noite de lua cheia, as pessoas começam a sair de suas casas e recomeçam suas rotinas diurnas. Contudo, aqueles que cruzaram o centro da pequena Tobaçu avistaram uma mudança na paisagem. Uma moça estava deitada ensanguentada e morta no chão, próximo ao parque municipal da cidade. Nenhuma evidência estava clara sobre essa fatalidade.

- Meu Deus, Uma mulher está morta! Quem será que a matou, o que aconteceu aqui?

Falou uma velhinha que fazia sua caminhada matinal pelo parque da cidade e ficou horrorizada com a a cena que avistara.
Com o passar do tempo mais pessoas se juntaram próximo ao corpo e começaram a se amontoar em torno do cadáver, embora ninguém a tocasse, aos poucos começaram a se perguntar sobre o motivo da morte:

- Mas quem fez uma barbaridade dessas com uma mulher, justo uma criatura de Deus e espelho da virgem santíssima!.. O culpado deve morrer como ela ou sofrer com a intervenção divina!

Retrucou outra senhora que estava fazendo sua caminhada.

- Deve ter sido uma foragida da polícia e foi morta numa emboscada. Teve um dia desses que mataram um na praça da Eulália, foi crime encomendado.. Chegaram atirando e só se viu bala voando para todo canto. Esse lugar tá um perigo.

Assim disse o jornaleiro que estava indo distribuir seu material pelos estabelecimentos da pequena cidade.
 Os murmúrios continuaram fortes até que alguém chamou a polícia e o SAMU para retirar o corpo da moça e dar início a investigação. 
Vale ressaltar que ela era uma mulher jovem e tinha entre 23 e 26 anos de idade, era muito branca, loira e usava roupas e pulseiras pretas. Seu rosto estava rente ao piso e, por isso não dava para saber como eram suas feições.
Assim que a ambulância chegou, os paramédicos averiguaram que a jovem estava realmente morta e quando viraram o corpo para pô-la na maca, o rosto da mulher foi exposto a todos os curiosos ali presentes e uma grande surpresa aconteceu. Uma jovem que estava próxima a vítima gritou histericamente:

- O QUE É ISSO NA TESTA DELA? É MARCA DE BALA! ELA FOI ASSASSINADA!DERAM UM TIRO NELA!!

Havia um ponto profundo em sua testa e, embora essa moça tenha visto o rosto apenas por um relance, parecia haver a marca de um projétil na testa pálida e ensanguentada da defunta.Pronto, esse era o estopim para as pessoas criarem e se apoiarem em diversas justificativas para a morte da desconhecida.
A polícia chegou, a ambulância aproveitou o ensejo e levou o corpo para o IML e os oficiais deram início a investigação sobre a morte da moça desconhecida. O alvoroço no local foi dispersado e cada um foi seguir sua vida.. e também foram especular sobre a vida - ou morte - alheia.
Este boato correu por toda a cidade e foi ganhando proporções cada vez maiores, os espectadores primários da cena do crime falavam para outras pessoas e em uma tradicional cadeia de telefone sem fio, cada um foi aumentando a sua maneira:

- Eu vi o corpo da moça, ela levou dois tiros! Um na nuca e outro no peito e acho que era uma suicida pois, além de tudo, tinha uma roupa toda preta e devia ser depressiva!

- Ela devia ser rapariga de alguém e o homem quis abafar o caso, bem feito.. Deus quem fez justiça com essa história!

- Morreu e não foi por acaso! Temos que nos manifestar! Uma mulher foi morta e sabemos o culpado. Foi o machismo quem a matou!

Os dias foram correndo e cada canto da cidade uma dessas três versões foi ganhando forma e cada vez mais força. Havia quem dissesse que a moça era gótica, devassa ou vitima passional. houve o boato inclusive de que ela era uma amante do filho do prefeito e sabia de todas as maracutaias que rondavam a região. Em um dado momento todos tinham suas versões mas ninguém tinha uma prova.
Durante as investigações o detetive Tobias Metido foi a cidade colher informações sobre a vitima e ouvir as possíveis testemunhas póstumas do crime.Embora seu interesse fosse profissional, o policial não conseguia dar caminho as suas investigações pois, segundo os moradores que o enchiam o seu saco diariamente, ele deveria fazer diversas coisas diferentes em relação a esta situação.
Deixar o corpo apodrecer, mudar as leis municipais de segurança e saúde da mulher, excomungar a moça da igreja (mesmo ele não sendo padre), prender o prefeito, instalar a pena de morte no município e até reduzir a maioridade penal.. Essas entre outras "exigências" o deixaram irritado e com vontade de encerrar o caso o quanto antes. Ele descobriu que a moça estava de passagem pela cidade e se hospedara numa pousada próxima ao local do acidente, colheu informações de identidade e rotina com o sigiloso recepcionista da pousada e foi embora para a capital esperar sair o parecer do perito criminal. Há quem diga que o Metido cuspiu no chão da cidade antes de ir embora...
15 dias após a partida de Tobias o laudo de perícia da polícia civil foi divulgado pelo próprio detetive, o parecer do policial foi lido por ele mesmo, direto de sua sala na capital.
As pessoas se juntaram em bares, restaurantes, clubes e em suas casas, especialmente para ouvir o que Tobias iria falar. As pessoas levaram faixas pedindo por justiça ou exaltando o poder das figuras divinas ou da ideoligia feminista. A cidade parou para ouvir. Portanto, para acabar a ansiedade de todos, o significado da morte foi revelado.

".. O departamento da polícia civil do estado de Erca informa que Fabrícia Ulisses De Eugenia Urdes veio a óbito no distrito de Tobaçu no mês de Outubro do corrente ano às 02:43 horas da madrugada no horário local. Antes de divulgar o laudo perícia antes gostaria de pontuar que a importância e o apoio dos populares é extremamente importante. contudo... para esse caso vcs não me serviram de nada.
O laudo do Legista Walter Sabido aponta que a pessoa em questão foi vitima de uma borracha sintética e parafinada, composta por substâncias emulsificantes, antioxidantes e banhada por um xarope feito de açúcar. O evento ocorreu quando a vitima estava andando para dar um passeio noturno antes de voltar para a pousada, ela andava despretensiosamente até por o pé sobre a borracha sintética e cair diretamente sobre uma brita que estava ali na hora. A pedra atingiu sua testa e a moça faleceu devido a este impacto.
Fabrícia portanto veio a falecer devido ao tropeço e, consequentemente, ao infeliz impacto sobre a pedra. Ela morreu porque pisou num chiclete. Foi um acidente!"

Um curto silêncio ficou no ar e ele continuou a falar, só que com a voz mais irritada ele bradou as palavras mais fortemente:

"OUVIRAM?Foi um acidente! A moça era uma engenheira da capital e estava sendo turista na região de vocês.. Ela  tinha problemas de pele por isso não gostava de andar no sol, apenas pela noite e foi um acidente que a matou!! Não foi um tiro, nem punição divina nem foi um sujeito que a perseguia.. foi um acaso do destino!
Seu falecimento já foi comunicado a seus familiares e o corpo dela já está prestes a ser cremado.. agora voltem a suas vidas e parem de fofocar sobre quem nem conhecem!!"

Assim acabou seu pronunciamento - que logo foi seguido pelo som de telefone mudo - para a rádio da cidade. 
As pessoas se surpreenderam com o parecer do policial e começaram a acreditar na história. Muitos fingiam que não julgaram o fato sem as provas adequadas e alguns até riram do azar da pobre moça no fim das contas:

- Poxa, um chiclete! que perigo hein? agora eu não vou nem querer mais mascar esse troço na minha vida... Retrucou um menino que ouvia rádio com a família.

Parecia então que todos tinham ficado perplexos e a mobilização então aparentava ter um fim, o motivo daquela morte ocorrer foi muito diferente dos tantos motivos especulados e nada mais poderia ser dito sobre isso..A menos que:

- Pera aí! (retrucou uma pessoa na multidão) se essa moça morreu por um chiclete, alguém o jogou antes e a matou! Então alguém é o culpado! Quem é o assassino???? 

No fim, a população convenceu as autoridades (na marra) que jogar chiclete no chão pode ser constatado como crime hediondo e, após passeatas e manifestações contra as gomas de mascar (e em nome da alma de Fabrícia), ficou decidido que em Tobaçu jogar chiclete no chão é crime.

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*Nota do autor: Em Cingapura, jogar chiclete no chão pode dar cadeia e multa. Talvez lá tenha ocorrido uma história parecida com essa.




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